Artigos

Conheça os palestrantes e assuntos que serão abordados no evento.
7
nov

Ciência compartilhada a serviço da vida

Projeto de pesquisa do ensino médio levou mais conhecimento ao sistema de transplantes de órgãos

“Eu tenho 23 anos, mas aparento bem menos. Parece bom, mas às vezes é ruim (risos)”, se referindo a impressão de inexperiência que a juventude, às vezes, pode transmitir. Assim iniciou a conversa com Juliana Hoch, palestrante do 25º Congresso de Marketing da ADVB/RS, que integra o Fórum da Transformação. De fato, quem se depara com o rosto jovem e a conversa descontraída da gaúcha, nascida em Novo Hamburgo e moradora de Estância Velha, não imagina o que ela já foi capaz de desenvolver. Trabalho realizado em parceria com o colega — desde os tempos de ensino técnico na Escola Liberato Salzano, em NH — Eduardo Tadeu Rodrigues.

Apesar de não ter certeza quanto à carreira que seguiria — dilema bem comum entre os jovens — Juliana optou pela curso de Química e, em 2009, já iniciava o seu primeiro projeto de pesquisa, incentivada pela escola. Um pouco da influência que a fez seguir por esse caminho veio do jeito simples dos pais. Moradores de Picada Café, no interior do Estado, sempre incentivaram a filha a produzir tudo o que fosse possível, sem contar tanto com as coisas prontas, facilmente ao alcance das mãos. “Desde o primeiro grau eu tinha o costume de reproduzir em casa, com o material de que eu dispunha, os jogos que eram oferecidos na escola, como o Jogo da Vida, por exemplo”, explica. Nesse mesmo período também pediu aos pais um microscópio, como um prenúncio do que viria.

Com o primeiro estudo para desenvolver combustível sólido, a partir da palha de milho e serragem, os dois alunos já conquistaram classificação na maior feira de ciência e tecnologia da América Latina, a Mostratec, que rendeu à dupla a participação em outro evento semelhante no Texas, EUA, em 2010. “Sempre tive a ideia de que os estrangeiros achassem que no Brasil fossemos todos índios, vivendo numa floresta, segundo me contavam aqueles que tinham a oportunidade de visitar outros países. Mas em contato com os estudantes de fora, descobri que o nosso País é referência em tecnologia, por exemplo, e isso foi um grande incentivo para que nos interessássemos ainda mais por pesquisa”.

Mas foi em 2011, depois de assistirem a uma reportagem que tratava dos problemas do sistema de transplantes no Brasil, que deram início a um novo projeto que resultaria na criação da empresa Vital | Soluções para a vida. Na reportagem um dado alarmante da época, fornecido pelo Ministério da Saúde, causou desconforto e acendeu o alerta dos pesquisadores: mais de 70% dos órgãos que poderiam ser transplantados são descartados no Brasil. Desse número, 25% se dá por falha na conservação dos órgãos. “Continuo achando importantes as campanhas de doação, mas esse mal precisa ser combatido com muita força para que o restante se justifique e funcione”.

Com a morte do doador oficializada, todo o sangue do órgão é extraído e no lugar é aplicado um líquido que faz a conservação do tecido, esse produto também é utilizado na imersão do órgão. Cada litro dessa substância, produzida exclusivamente no exterior (França e Alemanha) custa mil reais. E, normalmente, utiliza-se cerca de 8 litros por órgão; despesa paga pelo Sistema Único de Saúde brasileiro, o SUS. Além disso, o produto tem dois anos de validade, e devido à burocracia da importação, às vezes, acaba retido na Alfândega, reduzindo significativamente esse período para a sua utilização. Ou seja, os custos são imensos.

A matéria-prima

Analisando a composição do líquido conservante, os estudantes de Engenharia de Materiais da Unisinos, identificaram um composto bastante desconhecido, que nem mesmo professores conseguiram reconhecer, o ácido lactobiônico, insumo principal do líquido usados na preservação de órgãos para transplantes. Devido à sua capacidade de inibir a ação oxidante dos radicais livres, ele preserva a estrutura celular dos tecidos do órgão, e é a sua obtenção que torna todo o produto final tão oneroso.

Foi a partir dessa problemática que surgiu a ideia de reduzir o custo do líquido conservante com a purificação do ácido. Para a obtenção do ácido é feita a mistura de dois compostos (lactose e frutose), e nesse ambiente é acrescentado um microrganismo que converte essas substâncias em ácido lactobiônico e sorbitol. Mas para extrair o sorbitol dessa composição e obter apenas o ácido, o processo torna-se muito caro. Com a pesquisa, a dupla desenvolveu um método microbiológico, no qual um organismo acrescido a essa mistura se alimenta do sorbitol, eliminando-o integralmente. “Diferente de um método químico, esse microrganismo elimina toda a impureza e disponibiliza o ácido 100% puro, intacto”, explica Juliana.

Com a descoberta, Juliana e Eduardo acumularam ainda mais prêmios: 1º lugar na Mostratec 2011, duas bolsas integrais da Unisinos, prêmio Unesco, e participação na maior feira de ciências do mundo, nos EUA, em 2012, na qual alcançaram o 3º lugar na classificação e o reconhecimento da Sociedade Americana de Química. Com tanto estímulo, a seriedade do projeto só aumentou, principalmente, quando iniciaram uma série de visitas a pessoas que estão vivendo o processo de transplante. “Em Porto Alegre conhecemos famílias que estão aguardando há anos por um transplante. Uma mãe nos relatou que há dois anos não vê os outros dois filhos que estão no Acre, onde a família reside, porque ela aguarda ao lado do caçula o momento em que terão o órgão disponível para o transplante”, lamenta.

Todos os passos da pesquisa que durou dois anos, como viagens, materiais e visitas aos transplantados foram financiados com a realização de rifas e com o apoio de familiares e amigos. Em 2016 também conquistaram o prêmio Jovens Inventores, no programa de televisão Caldeirão do Huck, com um apoio financeiro de 30 mil reais. Outra conquista foi o Paga, programa que garante o registro de patente aos novos empreendedores, processo que custa cerca de 30 mil reais, e que disponibiliza uma equipe para orientação e apoio em todo o processo de registro no INPI.

Já formados no ensino médio e cursando a graduação, os pesquisadores enviaram um artigo ao Medical Valley, o Vale do Silício da saúde, na Alemanha, que recentemente passou a contar com um Cluster em Porto Alegre, na área de tecnologias para a saúde. Lá foram selecionados e patrocinados pelo Tecnosinos para conhecerem a iniciativa. Em novembro de 2015 foi criada então a Vital | Soluções para a vida, que está instalada atualmente no Parque Tecnológico de São Leopoldo. “No momento estamos em fase de captação de investidores e buscando qualificação como empreendedores. Fazendo testes em contato com clientes, como várias farmácias de manipulação do Sul do País, com as quais já temos contratos oficiais, e com uma indústria da França, detentora da maior fatia do mercado, maior produtora no mundo do líquido conservante de órgãos”, comemora Juliana.

Para 2017 o planejamento é contar com espaços alugados para viabilizar a produção, locais que já oferecem toda estrutura necessária para a fabricação da matéria-prima. Numa projeção muito modesta, segundo Juliana, o faturamento previsto para o ano que vem é de 170 mil reais e de 1 milhão de reais para o ano seguinte, com uma produção de 60 quilos do produto.

Além da utilização do ácido lactobiônico na produção do líquido que preserva os órgãos, a Vital também fornece o composto para a produção de cosméticos, no mercado de beleza.     A matéria-prima da Vital também possui uma poderosa ação antioxidante que tem atraído a atenção das indústrias cosméticas pelo mundo, sendo considerada a nova “fonte da juventude”, aplicada a produtos de função “anti-aging”. O ácido lactobiônico tem sido empregado em tratamentos de beleza de correções e preenchimento facial, e as clínicas estão investindo no tratamento de peeling facial, com resultados impressionantes, e superiores as demais soluções disponíveis, atualmente, como o ácido hialurônico.

Os desafios

Quando se trata de referências, Juliana cita como marca que admira a Natura, devido a forma como inovam pensando no produto como um todo, desde à embalagem até o conteúdo. “Especialmente no nosso caso, o grande agente foi o conhecimento”, hub que será abordado por Juliana no Fórum da Transformação. “Buscar esse conhecimento e compartilhar todas essas descobertas foi o grande combustível para a criação da Vital”. Segundo Juliana, o objetivo é que esse conhecimento seja comunicado, para que as aplicações do ácido sejam conhecidas, assim como seus benefícios, a ponto de tornar todo o processo de transplante mais acessível e mais ágil para a comunidade.

“O grande desafio das marcas no futuro é inovar cada vez mais, saindo do conforto, do lugar comum, e seguir a atitude das startups. As grandes empresas precisam desenvolver melhor essa capacidade de pivotar, ou seja, criar novas possibilidades, a partir de um projeto inicial. Ir além do produto, oferecendo algo cada vez mais completo, algo além do que o cliente espera”, conclui Juliana. E não há dúvidas de que a Vital, com Juliana e Eduardo, está trilhando esse caminho.

foto: Luis Eduardo Selbach